Textos

Pelo direito de ser livre

Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.
Mateus Baphão 11:28

           Sabemos que a (des)educação machista-cristã tem mantido e disseminado a ideia de que o homem hetero, másculo, viril e ’duro’ é o modelo a ser a seguido e que esse homem deve ser o dominante. Facilmente, posso provar tal sentença ao ler a carta que o Apóstolo Paulo enviou aos Efésios onde ele diz: “Vós, mulheres, submetei-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo (homem) é a cabeça da igreja (mulher), sendo ele próprio o Salvador (homem) do corpo (igreja=mulher). Mas, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres o sejam em tudo a seus maridos” Efésios 5:22-24. Esse ensinamento que é difundido até hoje pelos fundamentalistas aos cristãos, e reverberam aos que não são, deixam claro que o ser efeminado/feminino tem de ser minorado pelos homens.

Segundo Castañeda (2006, p. 18), o machismo “pode ser definido como um conjunto de crenças, atitudes e condutas que repousam sobre duas ideias básicas: por um lado, a polarização dos sexos, isto é, uma contraposição do masculino e do feminino segundo a qual não são apenas diferentes, mas mutuamente excludentes; por outro, a superioridade do masculino nas áreas em que os homens consideram importantes. Assim, o machismo engloba uma série de definições sobre o que significa ser homem e ser mulher, bem como toda uma forma de vida baseada nele”. Diante disso, podemos afirmar que a violência transhomofóbica tem interações fortes com um machismo que coloca a heteronormatividade como uma conduta nobre e superior a ser seguida e praticada.

A violência homofóbica não está restrita apenas para os homossexuais efeminados: mulheres trans, travestis e toda pessoa que agrega consigo característica femininas são destinadas a sofrerem violência, seja ela física, psíquica ou verbal por que o machismo legitima essa conduta quando coloca o homem normativo em superioridade.
Já são comuns casos em que homens heterossexuais foram agredidos por serem confundidos com homossexuais, e com certeza essa confusão se deu pelo fato de que o homem hetero teve comportamento ou agrega em si apanágios femininos, como, por exemplo, o pai que estava abraçado com o filho, em São Paulo, e por parecerem um casal homoafetivo, se comportando em desacordo com o esperado para a masculinidade padrão, foram agredidos por sete homens e o pai teve um pedaço da orelha multilado. Mulheres são agredidas, travestis são agredidas, mulheres trans são agredidas e homossexuais efeminados são agredidos pelo simples fato de carregarem consigo características, trejeitos e, até mesmo, pelo fato de usarem objetos hegemonicamente elaborados/criados para mulheres como batom e salto alto.

O corpo fala e um corpo efeminado incomoda muito: ser efeminado carregando um pênis no meio das pernas é muita afronta aos machistas que acreditam que a masculinidade seja uma grande dádiva e qualidade que jamais deve ser desprezada. Muita gente já deve ter ouvido a frase: “seja gay, mas seja ‘plantado’”. O ser ‘plantado’, subjetivamente, nos diz que ser homossexual não é o problema, mas o problema reside no fato do homossexual ser efeminado/exagerado/fechativo, porque ‘homem que é homem’ deve ser diferente disso, de acordo com as normas sociais e cristão-religiosas.

Muitas pessoas vivem oprimidas dentro de ‘casulos’ – armários –  criados pela sociedade e, até mesmo, por suas famílias e amigos. Muitas dessas pessoas não suportam tamanha opressão e sofrimento e acham a solução no suicídio, como foi o caso do estudante de 12 que se enforcou com o cinto da mãe, em Vitória-ES. “A causa para todos os tipos de suicídios são sociais”, segundo o sociólogo francês Emile Durkheim, portanto podemos pensar nas pessoas que suicidam devido ao estigma e marginalização de suas sexualidades e-ou gêneros como vítimas da homofobia. A opressão causa sofrimento e mata aos poucos de forma silenciosa e cruel, por isso o Baphão Queer existe para apresentar uma proposta a essas pessoas que vivem oprimidas, para, também, gerar ‘empoderamento’ a essas pessoas a falarem e assumirem suas expressões sexuais e de gênero sem medo, sem negar a sua essência enquanto ser e  instrumentalizar a sua acintosidade.

Vale ressaltar que esse texto não tem a intenção de criar uma política contrária à masculinidade, à virilidade e à heterossexualidade, mas sim de combater toda norma opressiva que atinge todas as pessoas, ou seja, a hegemonia do ethos patriarcal sejam elas LGBTs ou não. O Baphão preza pela liberdade, e estaremos sempre enfrentando toda e qualquer forma de opressão: o problema não está residido no fato de algumas, ou muitas, pessoas seguirem determinadas normatividades, mas, sim, nos processos sociais que as transformam em verdades absolutas, em leis contrárias às liberdades daquelas pessoas que não as querem seguir

Viver em liberdade é um direito de todos.

Misael Franco

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